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  • Foto do escritorAndré Luis Coutinho

A SINDICALISTA | Isabelle Huppert brilha mais uma vez em chocante história real


Foto: Guy Ferrandis - Le Bureau Films


Nos primeiros minutos de A Sindicalista, quando descobrimos o horror que ocorre à protagonista vivida pela fantástica Isabelle Huppert, não é absurdo lembrarmos de outro filme estrelado pela atriz há poucos anos, o suspense Elle, do holandês Paul Verhoeven. Ironicamente, o que ocorre a ambas as personagens de Huppert é muito semelhante, mas enquanto o filme de Verhoeven tratava-se de um thriller psicológico ficcional sobre uma personagem extremamente ambígua, nesse vemos um drama político e social baseado em fatos recentes sobre uma mulher aparentemente bem-intencionada que deve enfrentar uma campanha de descrédito não só de sua pessoa como também (de forma simbólica) de todas as mulheres que passam por abusos semelhantes.


Com isso, a força temática do longa de Jean-Paul Salomé é inegável. E até mesmo sua abordagem dramática, até certo ponto, nos inclui sob o ponto de vista da protagonista Maureen Kearney e de sua paranóia constante, tanto antes quanto depois do incidente citado acima. Afinal, o filme começa do meio para - daí sim - explicar com um longo flashback o que aconteceu até ali. A visão paranóica, tanto antes quanto depois do trauma da personagem vem não só de seu passado já traumático como também da própria consciência que tem como uma mulher que já foi rebaixada inúmeras vezes em sua profissão como sindicalista de uma multinacional francesa de energia nuclear.


E nesse caso, Huppert encarna um tipo totalmente contrário àquele que viveu no thriller de Verhoeven. Como uma mulher determinada, inteligente e rígida, a atriz ainda deixa transparecer certo receio de lidar com homens que se enxergam como superiores a qualquer figura feminina, enxergando sempre uma potencial ameaça em pessoas como seu novo chefe ou o capitão da polícia que investiga seu caso. Ainda assim, como o docudrama que se propõe a ser, Salomé foge do maniqueísmo temático ao mostrar como o marido de Kearney era um grande aliado em sua luta para provar o que realmente ocorreu, além de mostrar também uma paranóia corporativa (mais macro) em relação à mulher que julgava ser sua aliada. E a partir do ponto de vista da personagem, todo o elenco se encontra perfeitamente em sintonia.


Porém, A Sindicalista deixa exposto seu maior problema em sua estrutura. Como a primeira metade explora os esforços de Kearney em provar um esquema de corrupção da empresa em que trabalha e a segunda aborda a campanha de descrédito já mencionada acima, parece que a obra fica perdida em sua principal temática, o que acaba gerando um desfalque dos dois lados. É claro que, como bem explicitado durante a trama, o que vem depois é consequência direta da investigação que inicia o projeto, mas um dos exemplos de auto-sabotagem da narrativa construída por Salomé está na forma como aborda o abuso sofrido por Kearney, não expondo nada do evento e consequentemente nos fazendo duvidar de sua palavra assim como aqueles que estão à sua volta. Se isso seria interessante em um filme apenas sobre corrupção corporativa e política, já não funciona tão bem em uma obra que busca debater relações de gênero. A não ser que Salomé busque botar o público no lugar daqueles que julgam a moça sem provas substanciais, mas não acredito que seja o caso pelo grau de aproximação que a obra tem em relação à sua biografada.


E, com isso, até mesmo a conclusão de A Sindicalista surge um tanto apressada, já que se sente obrigada a dar um fechamento satisfatório para as duas grandes tramas abordadas, o que não ocorre justamente por Salomé optar por seguir uma montagem expositiva sem grande interesse dramático e, é claro, usando um dos clichês mais irritantes de filmes baseados em histórias reais: aquelas “notinhas de rodapé” explicativas que surgem nos últimos segundos de projeção. É uma indecisão temática que acaba desperdiçando o potencial de um ótimo drama, mas felizmente não diminui o brilho de sua estrela central. É sempre bom ver Huppert em tela e em tão boa forma!

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