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  • Foto do escritorJoão P. Atallah

ALÉM DO TEMPO | Uma história de luto e superação e acaba por naufragar em um sentimentalismo vazio

Divulgação


Diante dos artifícios do melodrama dentro da sétima arte, a intensidade emotiva de seus personagens e de suas histórias, uma potencialidade entre suas cenas, sejam elas marcadas por diálogos de forte caráter dramático ou por decupagens evidenciando as expressões corporais daqueles que compõem o núcleo narrativo do filme, surge uma das bases do humanismo nas telas. E é nesse humanismo que surge a conexão entre a arte e o espectador, onde a racionalidade é sobreposta pela passionalidade individual, conexão essa que parece mínima em Além do Tempo.


Contrastando o passado e o futuro, Além do Tempo costura uma narrativa melodramática acerca do luto prolongado de dois pais em uma constante degradação emocional pela perda de seu filho de 5 anos durante uma viagem de barco, ou pelo menos tenta costura-la. A não-linearidade do filme, uma técnica largamente presente no cinema moderno, que de certa forma atua como um agente do tempo dentro da história, falha em cumprir o seu papel a partir do momento em que nos entrega todo o desenrolar da tragédia logo ao início do filme. As cenas iniciais do longo, onde o casal Johanna (Sallie Harmsen) e Lucas (Reinout Scholten van Aschat), se provam como o ápice emocional do filme, momentos de uma leveza familiar em meio a imensidão do mar banhada pela clara luz do sol. Porém, quando o diretor Theu Boermans opta por uma narrativa sem linearidade, e resolve evidenciar logo nos primeiros momentos de uma construção melodramática, o desfecho trágico das férias, a partir de diálogos de cunho expositivo e forçado ao saltar quarenta anos na história para os já idosos Johanna (Elsie de Brauw) e Lucas (Gijs Scholten van Aschat), ele infelizmente reprime de forma brusca o impacto da morte de Kai, o filho do casal.


O choque inicial da perda sobre Johanna e Lucas é devastadora para os dois, mas peca quando tenta estabelecer um vínculo de empatia com o público. O diretor aparenta uma crescente dificuldade em expressar de forma efetiva e palpável as complexidades emocionais ocasionadas pelo luto, o que resulta em sentimentalismos vazios de profundidade e um refúgio para apelações dramáticas que cada vez mais afrouxa esse vínculo com o espectador. A partir disso, surge uma constante conjuração da figura de Kai, como uma tentativa de gerar algum tipo de emoção forçada apenas pela exposição da criança marcada por uma lembrança traumática, deixando de lado a já mal construída jornada do luto do casal. O enredo da peça de teatro é um exemplo perfeito disso, onde Boermans tenta conceber uma reflexão acerca da relação entre a arte e o artista entre suas vivências, praticando-a como um meio de auto reconciliação emocional, acaba por dar lugar a mais um recurso de apelação emocional, apenas para nos jogar imagens de Kai na esperança de nos causar emoções que o filme por completo não proporciona.


No fim, Além do Tempo, retira todo o potencial melodramático de uma história coberta por profundidades humanas não aproveitadas, tornando todos os acontecimentos e relações intimistas do filme reducionistas e rasos, dando voltas em recorrências narrativas baratas para impor um certo tipo de conexão com aqueles que testemunham essa história.


O filme se encontra em cartaz nos principais cinemas do Brasil



1 comentário


cristiano0x7
10 de ago. de 2023

Excelente crítica!! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

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