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  • Foto do escritorN'alu Macedo

American Fiction: a vivência que vira um produto



O escritor e professor Thelonious Ellison, conhecido como Monk, é um acadêmico frustrado pelas discussões rasas das salas de aula e as baixas vendas dos seus livros. Ele se incomoda com o fato das suas produções serem catalogadas dentro da sessão de "Estudos Afro-americanos" apenas por ele ser negro e como o mercado apenas se interessa por obras de ficção onde os personagens negros são estereotipados dentro das histórias.

A trama se inicia com Monk sendo levado a tirar férias forçadas após uma discussão com uma aluna em sala de aula, fazendo-o retornar ao seu bairro de infância para ficar mais perto de sua mãe e da irmã Lisa. Estar lá o faz perceber o quanto se afastou das suas origens com o passar dos anos, levando-o a reestruturar e valorizar os laços perdidos.


Em uma estreia ousada e inusitada, o diretor e roteirista Cord Jefferson escolheu contar uma narrativa com diálogos ácidos e inteligentes que discutem um tema muito relevante: a crescente capitalização das histórias de minorias sociais. Logo, o grande conflito de Monk está em decidir se está disposto a ceder às demandas do mercado por histórias de ficção de “diversidade” que, no fundo, apenas reforçam o julgamento negativo sobre a população negra.


Com uma linguagem que faz referência às sitcoms americanas, o filme é embalado por músicas de jazz e blues que colaboram para uma atmosfera mais crua, de uma vida cotidiana e pacata que aos poucos vai sendo envolvida por situações assombrosas e até por vezes irreais, dignas de uma ficção americana.

É uma comédia que aponta os preconceitos dentro do meio do entretenimento e a busca pelos grandes estúdios por novas vozes que tenham local de fala para criar personagens racializados. No entanto, essa busca é problematizada uma vez que mascara a apropriação e o controle dos produtores sobre a propriedade intelectual dos novos talentos.

American Fiction é uma experiência de criatividade, um longa que se apropria do ofício de escrever como um recurso de metalinguagem. Monk é o criador do mundo dos seus livros, mas ao decorrer da trama percebe que talvez a imaginação esteja mais misturada à realidade do que esperava.


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