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  • Foto do escritorJoão P. Atallah

Anatomia de Uma Queda: Justine Triet nos joga nas ambiguidades e incertezas de um possível crime


A diretora Justine Triet traça logo de início uma narrativa tradicional de um drama de tribunal clássico, uma morte em circunstâncias suspeitas que supostamente funcionaria como o ponto principal que move toda uma trama que, de início, parece que irá focar seu desenvolvimento no simples desenrolar judicial para a descoberta do ocorrido. Porém, Anatomia de uma Queda se revela muito além do que um simples mistério a ser desvendado, mas também como um estudo de personagem que se atrela a uma subjetividade dos fatos que são apresentados, relativizando não apenas as verdades que vem ou não à tona, mas também o ser daqueles que as envolvem, tornando esse ponto o centro narrativo de um filme que não tem pretensão em relevar as veracidades de sua história.


Triet parece ser a única que detém a verdade da história, sendo assim, ela não se preocupa em conceder nenhum tipo de sutileza para revelar entre as entrelinhas as verdades que rondeiam toda aquela situação que se torna complexa conforme o julgamento caminha para uma série de fatores passionais espetacularizados, mas sim expor o caráter dos personagens envolvidos naquele caso, e com isso, desenhar toda uma psique que reflete na persona de Sandra (Sandra Hüller), fator esse que se torna cardeal para as suposições que partem daquele que assiste. Em nenhum momento é mostrado o que realmente aconteceu, a diretora exerce um controle intimativo por meio de sua decupagem - que por vezes se torna íntima, e outras vezes se torna distante - sobre a percepção daquele que assiste, fazendo com que todos as circunstâncias fiquem à mercê do julgamento do espectador. Isso se exemplifica bem na cena da conversa gravada, em que nos é mostrado não só a gravação sendo tocada no tribunal, mas também a cena de forma direta, mas só até certo ponto, para sermos levados de volta à cena primária e ouvirmos o final da gravação junto daqueles que ali se encontram, não há um diálogo completamente sincero com a veracidade integral, ao mesmo tempo que a diretora não oculta de forma intencional os fatos que cercam o ocorrido, revelando eles progressivamente e de forma não necessariamente íntegra. Ao mesmo tempo que o longa se mostra um clássico filme de tribunal, ele se utiliza da alma de Sandra como o principal fio condutor da narrativa, se por um lado temos seu advogado e o promotor de justiça argumentando perante as provas e suposições apresentados na corte, do outro temos a índole da escritora sendo dissecada. Como já disse, nada nesse filme fica claro, e isso também se aplica a protagonista, ela tem seu caráter julgado e feito de alvo durante todo o processo que é imposta, seus pensamentos intrusivos retratados em seus livros são trazidos à tona, seus rancores emocionais em relação ao seu marido são arrancados dela e sua relação com seu filho é lentamente enferrujada, enquanto toma o papel daquele que é observado, quando a câmera fecha em suas feições, ou nos momentos em que é flagrada pelo olhar desfocado de seu filho entre as pessoas que assistem o julgamento. Sua imagem se torna o centro de toda aquela suposição imposta pela diretora, é dela que parte todos os sentimentos e mistérios que o filme proporciona, sendo potencializada pela atuação magnifica de Hüller.


Posso afirmar como é incrível a maneira que Justine Triet estabelece uma ótica ao mesmo tempo documental e íntima para as fortes relações que dão ao longa seu potencial dramático, como a diretora consegue espetacularizar acontecimentos cotidianos que poderiam fazer parte da vida de qualquer um. O simples contraste do sangue em meio a neve, o impacto tão violento de uma discussão de um casal em crise, uma emocionalidade que predomina os desenrolares de Anatomia de uma Queda.

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