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  • Foto do escritorAndré Luis Coutinho

BARBIE | Greta Gerwig brilha com “filme de boneca” social, existencial, lúdico e hilário

Divulgação


Eu sou fã de Greta Gerwig desde que assisti a Frances Ha, filme de seu marido Noah Baumbach na qual atua como a esquisita personagem-título, quase uma versão ficcional dela mesma (o roteiro também era de sua autoria). E em seus dois filmes subsequentes como diretora, o bom coming-of-age Lady Bird e o ótimo drama de época Adoráveis Mulheres, a cineasta deixou bem clara sua intenção de dar mais luz a temáticas femininas e - mais do que isso - de questionar o status quo das relações de gênero, independente da época.

 

Foi por isso que fiquei extremamente empolgado com a notícia inusitada de que ela estava dirigindo um filme... da Barbie... com atores gigantes de Hollywood... co-escrito por Baumbach. Ou daria muito certo ou daria muito errado, não existia meio-termo. E para minha felicidade, depois de tanto alvoroço e de um marketing absurdo, Gerwig mais uma vez se prova uma baita cineasta, dessa vez não com uma narrativa “pé-no-chão”, mas sim “pé-elevado” (perdão o trocadilho!). Falando sério, é delicioso ver esse desprendimento do realismo por parte de uma grande produção hollywoodiana em uma época em que até os filmes de super-heróis parecem exigir cada vez mais essa pretensa seriedade. Nesse ponto, a forma como o lúdico é trabalhado aqui lembra muito uma versão um pouco mais tímida do que as irmãs Lana e Lilly Wachowski fizeram com Speed Racer, com os cenários artificiais e os figurinos e performances extremamente cartunescos, enquanto o humor escrachado e propositalmente farsesco chega a remeter a momentos inspirados até mesmo de Monty Python.


Mas Barbie vai por caminhos um tanto inesperados que fazem sentido na autoria narrativa de Gerwig. Afinal, é um filme de boneca, mas um filme FEMINISTA de boneca. E esse "detalhe" é de extrema importância, já que a diretora usa esse contraste humorístico entre a Barbieland e o mundo real para comentar de forma óbvia – e isso não é ruim, pois o filme se assume óbvio – sobre a dinâmica entre homens e mulheres de um mundo para outro. E é nesse ponto que o contraste choca, a partir de cores lavadas e burocráticas que tomam conta do mundo real, no qual o filme já começa a demonstrar lastros de sua terceira camada: a existencial. Temos então dois grandes arcos, aquele que envolve o coletivo e aquele que envolve as autodescobertas da personagem de Margot Robbie, que novamente está apaixonante aqui com sua inocência e ingenuidade diante de um mundo tão triste e sem graça que não compreende.


 E por mais que nos momentos mais solenes e até contemplativos o longa ameace descambar como aconteceu com o péssimo Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, ele resgata uma inocência e uma despretensão tão honesta e tão bela que chega a emocionar, especialmente no momento acompanhado pela belíssima canção de Billie Eilish e que Gerwig trata com um afeto tão sensível que me encontro, nesse momento, com os olhos cheios de lágrimas enquanto escrevo este texto. Diferente do drama inserido de forma um pouco equivocada no besteirol Loucas em Apuros, aqui Barbieapresenta um timing dramático excelente por parte de sua autora.

   

Já o humor, por mais óbvio que seja, funciona na maior parte do tempo e meus momentos favoritos são aqueles estrelados por um impagável Ryan Gosling – e desde Dois Caras Legais, defendo que seu maior talento é o humor físico. Porém, assim como muitos filmes que tomam a comédia escrachada como motor, algumas piadas surgem um pouquinho repetitivas e, por vezes, auto-conscientes e referenciais até demais, algo que vez ou outra afeta muitas grandes produções dos últimos anos, como se a piada fosse feita exclusivamente para agradar certo públicoespecífico.

 

É um probleminha pálido em comparação a esse festival lúdico e belíssimo que é Barbie. Não é um filme revolucionário, até porque nem pretende ser. É uma belíssima versão da alegoria da caverna que brinca com dinâmicas de gênero enquanto discute o papel da mulher no mundo, alcançando resultados emocionantes. Agora nos resta esperar o que Gerwig vai nos oferecer agora com o universo de C.S. Lewis. Confesso que estou empolgado!

 

O filme estreia nos cinemas de todo país no dia 20/07


Assista ao trailer:


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