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  • Foto do escritorAndré Luis Coutinho

BESOURO AZUL | Representatividade latina dá charme a uma aventura formulaica


Bom, não é novidade para ninguém que os filmes de super-heróis passaram de seu ápice criativo há anos. Atualmente, vemos um ou outro destaque – como o caso de Homem-Aranha: Através do Aranhaverso – dentre uma esmagadora maioria de requentados formulaicos desenvolvidos a toque de caixa. É um modelo fordista como aquele das comédias brasileiras que apontei no meu texto sobre Barraco de Família (confere lá!). Infelizmente quem vem sofrendo mais com isso é a DC que, vitimada por uma gestão desorganizada da Warner, até hoje ainda não organizou seu universo compartilhado como sua concorrente Marvel, algo que está prometido pelas mãos de James Gunn para 2025.


 Com isso, Besouro Azul chega como uma incógnita assim como outros lançamentos da empresa em 2023: teríamos um filme que se sustenta mesmo que não apoiado por um universo maior ou mais uma "sopa de chuchu" lançada apenas por motivos contratuais? Bom, eu diria que a resposta vai para os dois lados, já que temos aqui um filme que jamais reinventa a roda e parece um extremo derivado de vários outros semelhantes recentes, mas também temos uma narrativa auto-suficiente que, apesar da fórmula, ainda conta com um charme de matinê oitentista complementado pela abordagem da família mexicana protagonista.

   E por mais que questionamentos sobre o olhar estereotipado em relação à Família Reyes sejam válidos, cabe apontar que nenhum personagem aqui, nem mesmo os “estadunidenses”, são tratados com qualquer tridimensionalidade. Basicamente o diretor Ángel Manuel Soto, conscientemente ou não, achou melhor trabalhar todas as personalidades mostradas aqui a partir de arquétipos já conhecidos da matinê hollywoodiana, o que não é necessariamente um problema e funciona especialmente quando o filme assume seu lado mais escrachado no terceiro ato, com um envolvimento maior dos Reyes na ação em uma decisão que lembra até aquela tomada no primeiro Shazam!. Em compensação, quando o longa surpreendentemente vai por direções mais dramáticas e até melancólicas, buscando potencializar as alfinetadas sociais a partir de analogias visuais, tudo parece sair do lugar e a alternância entre comédia e drama jamais soa coerente, muitas vezes calhando de um gênero sabotar o outro.


 Além disso, por mais que Soto demonstre certa desenvoltura para a ação direta, com planos longos e estilosos que nos encorajam a apreciar os golpes do protagonista nitidamente, é uma pena que a obra use tantas sequências de ação noturnas e mal-iluminadas para esconder certos “defeitos visuais”; afinal, a Palmera City retratada aqui parece vir de uma ficção científica cyberpunk ao mostrar vários arranha-céus dominados por logos corporativas iluminadas e coloridas que poderiam conduzir a ação de forma mais visualmente promissora. Ao menos, a trilha sonora e o carisma do sempre hilário George Lopez injetam personalidade e vivacidade na progressão narrativa.

   Besouro Azul é basicamente isso: uma aventurinha genérica e previsível em todos os seus sentidos formais e conteudistas que, ao menos, consegue ganhar algum charme a partir de seu recorte social e de sua despretensão autoconsciente.

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