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  • Foto do escritorAndré Luis Coutinho

Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes | A prequel contraproducente de um ótimo vilão


Uma franquia sobre rebeldes enfrentando um governo totalitário é lançada, conquistando fãs pelo mundo inteiro, especialmente por ter um vilão tão marcante e ameaçador. Anos depois, um novo capítulo dessa franquia é lançado, propondo abordar a origem da "vilania" desse antagonista e aos poucos diminui o impacto dramático daquele vilão a partir de péssimas escolhas ao tratar de sua gênese. Essa é uma descrição que se aplicaria a Star Wars mas que, agora, também pode se aplicar a Jogos Vorazes.


Afinal, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (baseado no livro de mesmo nome) busca explorar como um jovem Coriolanus Snow, herdeiro da nobreza da fictícia Panem que perdera tudo após uma revolta dos periféricos oprimidos, se torna o ditador sanguinário que conhecemos em 2012 na pele do excelente Donald Sutherland. Porém, ao invés de ter três filmes para "desenvolver sua maldade" como Anakin Skywalker, toda sua transformação é dedicada a três atos demarcados em apenas um filme. E isso não seria problema caso Francis Lawrence abordasse essa nova história com a mesma consistência que abordou os filmes liderados por Jennifer Lawrence. E o que quero dizer com “consistência”?


Bom, há claramente ótimos elementos que compõem essa prequel e que funcionam muito bem separadamente. Um dos destaques é como Francis Lawrence e a equipe de arte tornam palpável esse tempo anterior de um país fictício como Panem, algo que remete aos nossos próprios anos 1950, mas com uma identidade steam-punk e retrofuturista ainda acentuada pela arquitetura e pelas vestimentas. Outro destaque é como somos apresentados à atual conjuntura política do local e ao lugar do protagonista em meio a ela – ou seja, em uma lógica completamente oposta à do primeiro Jogos Vorazes que focava em uma menina que vinha de baixo. E, acima de tudo, algo que Lawrence sempre soube tratar bem em suas passagens anteriores pela série: como a Capital de Panem se encaixa na teoria da “sociedade do espetáculo” e todas as idiossincrasias que circulam esse tema (destaque aqui para o personagem de Jason Schwartzman).


Porém, todos esses elementos são os que compõem a primeira e a segunda partes dentre as três presentes aqui. E até o fim da segunda parte, eu estava considerando A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes um bom filme, mesmo com certas ressalvas. Por exemplo, não gostei de como Lawrence parece ter abandonado aquela abordagem mais seca da direção da ação em prol de algo mais dinâmico, algo digno de um filme de ação da Marvel ou da DC. Afinal, se estamos tratando de um SUPOSTO espetáculo que na verdade mata inúmeros jovens mais pobres como um duelo de gladiadores na Roma Antiga, o que não precisamos é que o filme REALMENTE transforme esse Jogo em um espetáculo aos nossos olhos (e eu já tinha certo problema com isso no último filme, A Esperança – Parte 2).


Mas o que piora a situação do longa de fato é seu terceiro ato e como todos os elementos citados acima se unem a ele para fechar esse desenvolvimento do vilão Snow. E nisso não busco tecer nenhuma crítica ao ator Tom Blyth, que está muito bem e demonstra a tridimensionalidade dramática de seu personagem com sucesso. Meu problema está voltado a como Lawrence conecta esse ato aos anteriores, não apenas sacrificando o clímax por focar excessivamente no Jogo na metade da projeção como também ao apressar a transformação do protagonista, de um garoto contraditório que tinha boas intenções a um completo elitista facínora descontrolado. Parece que o filme pula do ponto B ao ponto F em fração de minutos e toda a maldade de Snow é resumida a um amálgama de ciúmes e lealdade infundada, cuja semente jamais observamos germinar. Muito pelo contrário, na parte final somos apresentados a várias situações um tanto aleatórias e a um romance pessimamente desenvolvido para que o filme conclua sua missão de demonstrar como Snow ascendeu ao poder – e o mais irônico é que nem isso consegue de fato.


Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes compartilha dos mesmos problemas daquele último filme estrelado por Jennifer Lawrence e, pela primeira vez, me fez desejar que um filme baseado em apenas uma obra literária fosse dividido em dois. Desse modo, teríamos acompanhado com mais calma o desenvolvimento de Snow de forma que fizesse sentido narrativamente ao invés de uma obra remendada por letreiros que parece não ter muita noção de como contar uma boa história a partir da união entre forma e conteúdo. Uma pena!

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