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  • Foto do escritorAndré Luis Coutinho

Os Segredos do Universo por Aristóteles e Dante | O conflito formal entre o realismo e o melodrama


Como alguém que jamais havia ouvido falar na obra original escrita por Benjamin Alire Sáenz, um pensamento passou pela minha cabeça ao receber o convite para a cabine de Os Segredos do Universo por Aristóteles e Dante: que a expressão “segredos do universo” aliada a nomes como Aristóteles e Dante (Alighieri?) soava como um título muito pretensioso para um romance adolescente, especialmente ao usar a preposição “por” para transformar os dois protagonistas em desbravadores autores.

A não ser, é claro, que o filme assumisse um caráter cafona e piegas para desenvolver esse romance, o que seria muito válido.

 

Infelizmente, o novo filme da diretora Aitch Alberto acaba caindo em um problema recorrente de alguns dramas românticos mais recentes, uma certa crise de identidade formal entre o drama realista e o romance melodramático assumidamente cafona. Afinal, temos aqui dois protagonistas (um casal) jovens e americanos descendentes de mexicanos, e assim como o recente Cassandro de Roger Ross Williams – que também trata da homossexualidade nesse EXATO contexto espacial e temporal – o filme parece sim usar a cultura das telenovelas mexicanas para pincelar esse momento de autodescoberta dos dois garotos, tanto individualmente quanto romanticamente. Basta observar, por exemplo, seus momentos de intimidade receosa ao olhar para as estrelas e os diálogos irrealistas e idealizados que saem de suas bocas, como se a lógica por trás do estilo do filme fosse seguir essa abordagem mais melodramática e até brega.


Porém, não é isso que acontece e, ao tentar tecer comentários sociais mais fortes e trágicos, o longa acaba despencando para um realismo que em nada casa com essa idealização exacerbada dos sentimentos entre os dois personagens. Isso acaba provocando um sentimento oposto ao que o filme tentara criar; ao invés de nos afeiçoarmos com o carinho entre os dois “amigos”, simplesmente só conseguimos pensar em como todas as palavras trocadas entre os jovens soam artificiais diante de um tratamento tão realista e cru do mundo em volta deles. E, para piorar, a resolução dos conflitos mais pesados (e reais) da trama soa absurda e idealizada a um nível quase idiotizante e preguiçoso, e isso faz com que o filme se torne uma série de incongruências narrativas e formais muito escancarada.


Mesmo com o elenco se esforçando para conferir mais personalidade ao projeto (e os dois principais apresentam potencial), Os Segredos do Universo por Aristóteles e Dante é tão contraditório em abordagem que acaba provando o sentimento que eu tive ao ler seu título pela primeira vez: uma pretensão e complicação desnecessária do que poderia funcionar pelo caminho mais simples e sem floreios.

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