top of page
  • Foto do escritorJoão P. Atallah

Segredos de um Escândalo: o melodrama de Todd Haynes em sua concepção de um novo Persona


Se Ingmar Bergman estabelecia aquela distancia voyeurista dos reflexos do ser entre as personagens de Liv Ullman e Bibi Anderson em Persona, concedendo o espectador o olhar para a relação quase simbiótica entre as duas, Todd Haynes parte para o outro lado da moeda, tomando o voyeur íntimo e pessoal do ser a matriz da narrativa de Segredos de um Escândalo. Uma característica que marca a natureza maneirista do diretor, buscando em obras passadas e clássicas sua influência demasiada, refletindo isso não apenas em sua estética remetente aos melodramas dos anos 40 e 60, como também na relação de observadora e observada entre Elizabeth (Natalie Portman) e Gracie (Julianne Moore), sendo essa uma pura temática Hitchcockiana que compõe a maior parte da mise en scène do filme.


Elizabeth é uma atriz que busca realizar uma suposta pesquisa de campo para um filme que está prestes a realizar sobre a vida de Gracie, que a vinte anos foi presa, acusada de ter relações sexuais com Joe (Charles Melton), que na época possuía apenas treze anos, e que atualmente se encontra casada com ele e criando seus filhos já adolescentes. Haynes estabelece esse vínculo de predomínio do olhar entre as duas protagonistas, Elizabeth está ali para puramente observar Gracie, com o objetivo de incorporá-la para que sua atuação no filme se torne mais autêntica, partindo dessa posição de observadora de alguém que aparentemente não possui a noção de sua posição voyeurista.

De forma progressiva, Elizabeth passa a tornar Gracie, copiando seus trejeitos, suas vestimentas e até mesmo seus sentimentos e desejos, enquanto Gracie ao longo desse processo quebra sua imagem de observada, se revelando muito mais do que sua inocência ingênua aparenta. O diretor não se preocupa em exalar sutileza na decupagem de sua narrativa, como já disse, seu maneirismo não enfatiza uma encenação realista, mas sim exagerada, potencializadas pelas atuações excepcionais de Portman e Moore, sendo nos atos não naturais de Gracie, tanto nas incorporações pesadas de Elizabeth.


Não só apenas dentro dessa tese acerca do papel do ator, e como a posição de assumir uma persona diferente para si em meio a realização da arte, o longa não deixa de exaltar seu potencial melodramático. Isso se exemplifica nos momentos em que o foco da narrativa se vira para o personagem de Melton, quando entramos na cabeça de um jovem adulto que passou por uma experiencia de vida conturbada, ele não foi jovem, ele não sabe se sua maturidade o acompanhou nas escolhas, e isso o perturba, ainda mais quando Gracie está ali, a figura que deu rumo a sua vida, sendo ele de felicidade ou de dúvida.


Todd Haynes olhou para Hollywood nos tempos modernos e enxergou aquela obsessão pelo real, uma rejeição não apenas a fantasia e o absurdo em tela, mas também pelasdecupagens e encenações que se ateiam a uma demanda realista. Com isso, Segredos de um Escândalo resgata a vida e a sensualidade do cinema fora da projeção que o capital inflige no cenário hollywoodiano, uma ousadia artística que só um diretor maneirista e amante da história da sétima arte poderia realizar.

コメント


bottom of page