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  • Foto do escritorJoão P. Atallah

TEMPOS DE BARBÁRIE – ATO I: TERAPIA DA VINGANÇA

Marcos Bernstein mira em uma crítica ao ódio e acerta em um fetichismo pela violência da classe média.


O letreiro ao início do longa, que traz à tona a problemática do facilitamento do acesso as armas de fogo no Brasil, que deveria atuar como uma reprovação a política armamentista vigente no país, logo se quebram ao longo do filme ao estabelecer uma trama fetichista evingativa. Carla, atormentada pela morte da filha baleadaem um assalto, não consegue seguir a vida após a tragédia, e com isso, busca retaliação contra a cadeia de foras da lei que possibilitaram o fácil acesso a arma que tirou a vida de sua filha.


A suposta reflexão revisionista do armamentismo popular é abandonada em prol de uma narrativa que dá uma grande ênfase no desejo de vingança da protagonista. É nesse ciclo vingativo que Bernstein constrói uma fábula sobre a pirâmide do crime, trazendo à tona toda essa sistematização do acesso as armas pelos criminosos. Uma pena que o diretor opta por centralizar toda essa complexidade sistemática acerca dos desviantes sociais em meio a esse cenário de violência na paranoia de Carla, escolhendo por gerar uma força emotiva através do processo de sua corrupção moral, e com isso, apenas torna toda a criminalidade em volta como um alvo a ser eliminado pela fúria de uma justiceira que não a perdoa. Ele ainda tenta humanizar aqueles que são pintados como vilões pela história, como quando ele mostra o traficante assassino de sua filha interagindo de forma amorosa com a família, artificio esse que demostra um certo desespero em não adotar uma ótica conservadora, ou seja, pintar a criminalidade alheia como um mal a ser extinguindo da sociedade ao desumanizar os membros de tal minoria, o que infelizmente não cumpre o seu papel narrativo, o que leva a outro problema do longa.


Todo o detrimento psicológico de Carla vai se tornando um combustível para a crueldade que ela busca devolver aos envolvidos no surgimento de seu trauma, a partir daí, Bernstein a transforma em uma espécie de anti-heroína. Ela espera caçar todos aqueles que compõem a pirâmide criminal que possibilita os atos bárbaros de serem cometidos, talvez tenha sido nisso que o diretor quis evidenciar a questão armamentista. Porém, toda essa caça aos culpados acaba por cair em um fetichismo pela violência, as ações de Carla ganham um cunho de heroísmo em meio aquele cenário selvagem, e é ao final que o subtítulo do filme ganha vida em meio a tela. Cansada de tentar superar sua dor em sessões de terapia coletiva com outras vítimas da violência urbana, ela prefere realiza-la com os culpados da morte de sua filha, traçando essa linha da fabricação da arma até o disparo assassino, tudo isso com a presença de sua terapeuta. Como já tido, o suposto discurso político proposto pelo longa se esvai para dar espaço a uma intriga vingativa que glorifica a violência, como se o detrimento de Carla não importasse mais do que a punição que irá ser sofrida pelos criminosos, um ciclo de brutalidade que se não se fecha, e além disso, a coloca como um dispositivo de justiça pessoal.


É triste ver como uma história com um potencial discursivo de cunho social tão poderoso cai em uma espetacularização tão inverossímil da violência social.

 

 

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