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  • Foto do escritorJoão P. Atallah

WONKA: uma pequena carta de amor a fantasia em meio a tempos de um realismo vazio no cinema


A cinematografia hollywoodiana da última década foi marcada pela forte ascensão de uma demanda realista, tanto visualmente quanto narrativamente. Devido a isso, o cinema tem sido tomado por uma pequena obsessão por elementos que supostamente exaltariam uma complexidade que simularia a realidade na composição de suas histórias. Isso deu início a uma busca interminável por uma lógica narrativa que torna tudo explicável em tela, algo que transforma o filme, por muitas vezes, em uma aula cínica de física, ou em um monólogo de explicações lógicas, mais interessado em desenvolver uma trama cientificamente labiríntica, do que idealizar a magia do cinema em retratar o fantasioso de forma surreal e absurda. Indo contra essa onda, Paul King nega o realismo e abraça a pura fantasia, resultando na explosão de cores e maluquices que é Wonka.


King não se preocupa, em nenhum momento, em legitimar os elementos surreais do longa, e com isso, constrói uma ótica que anula o realismo em prol de um mundo onde tudo é possível. Willy Wonka (Timothée Chalamet) é a personificação desse mundo fantástico, provando isso nos momentos em que tira várias coisas de dentro de sua cartola em uma naturalidade divertida, ou quando inventa dos mais variados doces com os mais variados efeitos malucos, tudo isso acompanhado da técnica de King em valorizar toda esse ambiente onírico que o personagem de Chalamet concede, tudo isso sendo possível pelo uso sábio do diretor do CGI.


Indo na contramão do uso do meio técnico, que normalmente é apreciado pela sua capacidade de reprodução da realidade, até em filmes que propõem uma estética ficcional, mas que se utilizam dos efeitos especiais para simular o ficcional mais próximo possível da realidade, King usufrui disso para exagerar nas cores e nos acontecimentos bizarros que concedem beleza ao longa. Ofantástico ainda serve de fundo para questões que o filme aborda com uma sutileza política quase irônica, o capital como vilão do sonho do artista, a união da classe operária em prol do surgimento da felicidade vinda da arte, não apenas dissertando sobre o fantástico e o impensável, mas também apontando o mundo real como o obstáculo dessa alegria que só os sonhos atribuem.

Wonka funciona como uma grande ode ao inimaginável, em uma era que a sociedade clama por realidade nas histórias que escolhem acompanhar, Paul King apontou para o outro lado da moeda, para mostrar como a fantasia concede um escape rápido da cruel realidade, mesmo que esse escape se mantenha dentro da sala do cinema, lugar onde a descrença do fantástico se oculta. Wonka é leve, é divertido, é alegre, e além de tudo isso, é extraordinário.

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