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  • Foto do escritorJoão P. Atallah

NOSSO AMIGO EXTRAORDINÁRIO | A cura para a solidão vem por onde menos esperamos


A carreira de produtor de entrega um pouco como Nosso Amigo Extraordinário funciona. Milton (Ben Kingsley), um viúvo de 79 anos que vive sozinho e mantém um pequeno contato com sua filha (Zoë Winters), tem seu jardim destruído depois de uma nave espacial cair em seu quintal, abrigando um ser de outro planeta, ser esse que desperta um senso de existência e pertencimento em Milton e em suas amigas Joyce (Jane Curtin) e Sandy (Harriet Sansom Harris), encontrando um pequeno significado para suas vidas em cinzas. Partindo disso Turtletaub constrói uma comédia ácida que possui uma simplicidade narrativa autoconsciente, que não se preocupa em engrandecer seus acontecimentos, o que normalmente seria esperado de um filme com elementos fantásticos, mas sim no sentimentalismo que envolve seus personagens perante aquele cenário surreal, construindo uma relação afetuosa com o alienígena que evoca certas reflexões acerca da vida.


Partindo dessa proposta sentimentalista, a presença do alienígena na história não segue o já esperado plot da perseguição pelo estado, como já visto em E.T. O Extraterrestre, Super 8, Starman - O Homem das Estrelas, entre outros bons filmes que seguem essa cartada narrativa, e que é inclusive ironizada ao longo do filme. Apesar desse pequeno detalhe existir em meio aos acontecimentos do filme, não é esse o enfoque narrativo que o diretor procura desenvolver. Ele está muito mais interessado em estabelecer uma conexão emocional entre Milton, um senhor vivendo sem a presença de amados em sua volta, e o extraterrestre nomeado Jules, que aparenta estar passando por um imenso problema quando sua nave cai na terra. Todas as pequenas sequencias que mostram os agentes do governo buscando a localização de Jules apenas servem para dar uma urgência para sua partida, a real história é sobre Milton, Joyce e Sandy, e como Jules provoca mudanças emocionais em suas vidas, tomando esse sentimentalismo como a base do longa.


A partir desses elementos, o fantasioso e o ficcional recebem o enfoque do filme, porém, é nítido o pouco esforço do diretor em tentar justificar tudo aquilo que acontece, algo que pode parecer de certa forma preguiçosa, mas apenas engradece toda trama, afinal podemos nos questionar o que seria do cinema se tentássemos impor lógica a tudo que vemos em tela. Em nenhum momento essa pequena situação inusitada parece ser racionalizada por Milton, mesmo que ninguém lhe dê ouvidos para nada que ele tenha a dizer, o viúvo parece levar todo esse surrealismo como algo normal, sendo isso até mesmo um artifício cômico perante o quão calmo ele se comporta com Jules ao seu lado. O alienígena se torna um centro de refúgio, sem ao menos conceber uma fala ou nenhuma outra expressão, seu olhar transcende uma humanidade que nenhum som ou comportamento poderiam proferir, e com isso costura uma relação de afeto com os três idosos que se mantém tanto por pequenos desabafos até elementos de comédia ácida, que funcionem muito em entre si.


Tudo que Nosso Amigo Extraordinário procura provocar naqueles que assistem essa bela história é atingido pelo diretor Marc Turtletaub, nada além de Jules, Milton, Joyce e Sandy importam de verdade nessa narrativa. As questões familiares dos três, a procura do governo pela nave, a doença de Milton, é tudo posto de lado em favor da conexão humana entre os quatro, o que se transforma em um filme que, ao mesmo tempo, nos faz questionar sobre o valor de estar vivo e cria um certo conforto acerca da vida, nos deixando pensativos de várias formas.

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